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  • Foto do escritorAna Flávia Teresa Paiva Arriero

Bezerros do Cedo, o ideal da cria lucrativa


A época do ano em que os bezerros nascem é determinante para obtenção de indivíduos de qualidade. Os chamados “bezerros do cedo” são aqueles que nascem no início da estação de parição e apresentam melhor desempenho frente aos bezerros nascidos mais tardiamente, principalmente no que diz respeito à imunidade e ganho de peso. Dessa forma, concentrar os nascimentos dos bezerros nos meses de junho a agosto, é uma das melhores estratégias para registrar maiores índices zootécnicos na propriedade.


Já existem diversos trabalhos a campo que comprovam a superioridade de bezerros do cedo em comparação aos nascidos mais tarde e essas vantagens estão associadas principalmente a fatores nutricionais e sanitários.


O início da estação de parição, que caracteriza os bezerros do cedo, está inserido no período seco do ano. Na ausência de chuvas, estes indivíduos apresentam menor exposição a fatores de risco, como ecto e endoparasitos, visto que no período chuvoso há uma maior infestação de ovos e larvas.


Além disso, a umidade também favorece a proliferação de vírus e bactérias no ambiente, aumentando o desafio para os recém-nascidos. As enfermidades mais comuns relacionadas a esses patógenos são: diarreia, pneumonia, infecção de umbigo e infecções articulares.


Para que as vacas consigam parir no cedo, é necessário que estas emprenhem no início da estação de monta. No Brasil central, considerando a gestação de 287 a 291 dias, de uma vaca nelore por exemplo, essa fêmea deve emprenhar entre os meses de setembro a novembro e para que isso ocorra é essencial que as vacas cheguem à estação de monta com escore corporal satisfatório.


No início da estação de monta, as novilhas estão em pleno crescimento, as multíparas estão produzindo leite e no processo de involução uterina e as primíparas, além do bezerro ao pé e involução uterina, ainda estão se desenvolvendo. Todas essas etapas requerem grande quantidade de nutrientes. Se a fêmea gastar toda reserva para produção de colostro e leite, quando o útero estiver regredindo, ela não terá nutrientes suficientes e atrasará a reprodução para o próximo cio. Dessa forma precisamos nos assegurar de que os animais estejam ingerindo quantidades suficientes de macro e microminerais, assim como energia e proteína.


Durante o período das águas, há uma boa oferta de forragem com boa digestibilidade, levando a um consumo de matéria seca aproximado de 2,4% do peso vivo. Neste momento, podemos oferecer uma suplementação mineral que atenda as exigências da categoria ou um suplemento mineral enriquecido com proteína e energia, que além de atender as exigências, levará a uma estabilidade de consumo dos nutrientes necessários para a concepção e nutrição no início da gestação.


À medida que a seca se aproxima, a pastagem entra no período de transição, diminuindo sua digestibilidade e consequentemente diminuindo a taxa de passagem, que é um maior tempo de permanência da dieta no rúmen do animal, assim provocando uma menor ingestão de matéria seca. Para essa fase, é ideal aumentar os níveis nutricionais, visto que os animais estão prenhes ou sendo preparados para tal e não devem ter seu escore corporal diminuído.


No período seco, com mais de 85% do volume da pastagem com baixa digestibilidade, a queda na ingestão de matéria seca leva a um consumo abaixo de 2% do peso vivo, necessário para mantença. Para manter o funcionamento do organismo, o animal começa a utilizar nutrientes de outros destinos como da nutrição fetal, além de retirar de suas próprias reservas, especialmente dos músculos, resultando em perda de peso.


O principal limitante de desempenho em vacas criadas a pasto é a proteína. As pastagens neste período fornecem 5% ou menos de proteína em sua massa. Por isso, é interessante nessa fase, lançar mão de suplementação específica, com formulações protéico-energéticas.


É de extrema importância em todos os períodos realizar o planejamento nutricional para que todos os animais recebam nutrientes para sua mantença, produção de leite e/ou nutrição fetal, além de fornecer aporte necessário para o bom funcionamento do rúmen.


Se as fêmeas desafiadas emprenharem no início da estação de monta e receberem nutrição correta durante todos os períodos, chegarão até o parto com escore corporal satisfatório e o processo de involução uterina será eficiente. Como já mencionado se a fêmea não tiver reservas para a regressão uterina, ela adiará a reprodução para o próximo cio, aumentando a duração da estação de monta.


Quanto maior for a eficiência na regressão uterina, mais tempo a fêmea terá para emprenhar e maior vai ser a chance de prenhez no início da estação de monta, mantendo o intervalo entre partos o mais próximo possível de 12 meses.


O intervalo entre partos demonstra a real eficiência reprodutiva das matrizes, quanto mais longo, menor proveito tem sido tirado da vida útil dos animais. Um maior intervalo entre partos tem impacto no número de produtos deixados pela matriz (vaca) ao longo de sua vida. É comum a presença de matrizes com alto intervalo entre partos no rebanho, por isso o descarte de vacas que não emprenham na estação de monta é fundamental para a eficiência do rebanho.


Existem muitas manobras para antecipar a estação desde que se consiga melhorar o aporte de nutrientes e escore corporal das reprodutoras.


Vários são os efeitos que a nutrição da vaca na gestação exerce sobre o feto em formação. Nos terços inicial e médio da gestação ocorre a formação das fibras musculares do feto, chamada de miogênese e a formação dos todos os órgãos, chamada de organogênese. Já no terço final, ocorre a hipertrofia das fibras musculares produzidas e concentra-se a deposição de gordura, chamada de adipogênese e popularmente conhecido como marmoreio.


Durante a gestação o músculo esquelético possui menor prioridade na partição de nutrientes do feto em relação aos órgãos vitais, como cérebro e coração. O déficit de nutrientes no primeiro e segundo terço de gestação, reduz o número e volume de fibras musculares e, portanto, ter vacas que emprenhem enquanto elas tiverem chance de dar suporte melhor ao bezerro é essencial. Dessa forma, a capacidade do bezerro do cedo ganhar peso vai ser maior e consequentemente seu peso a desmama será maior que bezerros “do tarde”.


Pensando na produção de carne, um bezerro com maior número de fibras musculares e adipogênese bem feita, terá maior facilidade de ganho de peso frente aos outros.

Mesmo que haja aporte de nutrientes nos terços iniciais da gestação, volto a destacar a importância da suplementação na seca. Ainda que a produção de fibras musculares tenha sido adequada, a restrição de nutrientes da vaca no terço final da gestação leva a redução na capacidade de produção de carne, pela perda do start metabólico para ganho de peso.


No caso das futuras matrizes, a restrição alimentar da mãe resulta em falha no desenvolvimento de todos os órgãos: pulmão, ovários, testículos, estômagos, intestinos, rins etc. Pensando em tecidos reprodutivos da bezerra e consequentemente redução de sua fertilidade. Em adição, o déficit nutricional da mãe também pode levar a um menor crescimento da glândula mamária, resultando em menor habilidade materna no futuro.


A nutrição não pode alterar a genética, mas pode limitá-la. A mudança na capacidade reprodutiva pela restrição alimentar da mãe, por exemplo, acontece devido a mudanças na expressão de genes sem modificação do genoma, chamadas de epigenéticas, e ocorrem no útero de fêmeas bovinas especialmente nos primeiros 120 dias de gestação. Essas alterações genéticas podem ser congênitas, quando não passam para às gerações futuras, mas prejudicam o desempenho do animal, ou podem ser hereditárias, quando são repassadas para gerações futuras e prejudicam todo o processo de seleção e melhoramento zootécnico de um rebanho.


A antecipação nos leva a ganhos econômicos e zootécnicos substanciais, portanto o planejamento nutricional e reprodutivo do rebanho é fundamental para o sucesso e à obtenção de lucro na pecuária.


*Ana Flávia Teresa Paiva Arriero é médica veterinária do Grupo Matsuda, mestre em Ciência Animal e doutoranda em Ciência Animal.

Reportagem publicada na edição de agosto de 2022 da revistanelore. Leia a edição completa AQUI.


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