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  • Ivaris Júnior

Pampa, o “resort” da agropecuária nacional

Com altos índices de produtividade em uma infinidade de culturas, esse bioma sul-brasileiro ainda traz fauna e flora exuberantes, além de grande beleza natural.



Não há como conceber a atividade rural brasileira, em especial a pecuária, sem a cultura do Pampa, em seu jeito “gaúcho” de ser, tão bem retratado na arte. Do tempo dos carros de boi e conflitos armados (fatos que geraram produções, algumas merecedoras de Oscar, como o emblemático “A Missão”, do diretor Roland Joffé, em trilha sonora do maestro Ennio Morricone; séries e novelas de TV), ao vigoroso turismo da vinicultura, são muitos os episódios que fazem essa saga de sucesso, ainda em curso.


“Pampa” é um termo de origem quíchua (indígenas da América do Sul) que significa “região plana” (campos nativos) – relevo predominante – porém incluindo áreas mais acidentadas. Trata-se de um bioma que envolve todo o país Uruguai, parte importante da Argentina, uma porção bem menor do Paraguai e 67% do território sul-rio-grandense (por volta de 700 mil quilômetros quadrados).


Apesar da imprensa falar em região temperada do Brasil, não é bem assim. Ela é, predominantemente, subtropical; ou seja, com um verão de altas temperaturas e inverno de frio intenso, fortes geadas e nevasca, sempre envolta à muita umidade. Além disso, as estiagens são recorrentes, de ciclos em ciclos climáticos, castigando muito a produção. Porém, nas últimas décadas, a seca chegou à rotina, fato atribuído ao aquecimento global, segundo cientistas.


Campos nativos e sua vocação


Pelas planícies, campos nativos com gramíneas e suculentas leguminosas, a pecuária se instalou no Pampa já nos primórdios do Brasil. Era a terra para ruminantes e o monogástrico equino. Em questão o desenvolvimento da raça Crioulo que popularizou o cavalo até nos nossos tempos, sempre unindo famílias em torno dele. Trata-se de um presente mais desejado entre os jovens do que um automóvel de última geração.



Nos bovinos, o País viu a entrada de inúmeras raças europeias – umas mais, outras menos, mais especializadas em produção de carne ou leite. Algumas de duplo-propósito. Se é inquestionável o papel protagonista das raças zebuínas no atual perfil de produção da carne brasileira, nos trópicos, é irrefutável a contribuição dos taurinos provenientes do Sul na produtividade adquirida ao longo de décadas, por meio de cruzamentos.


Quem nos traz à luz é José Fernando Piva Lobato, em essência um professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas também um engenheiro agrônomo que representa o País nos principais eventos internacionais de reflexão sobre o agronegócio, representando o Brasil no melhor do pensamento científico. Trata-se de uma das maiores autoridades do mundo, quando o assunto são as riquezas naturais do Brasil, em especial do Pampa, que ensina o País a ser melhor, por exemplo, na criação de animais.


É um apaixonado por pecuária de corte, vinculado ao ensino da UFRGS. O “mestre”, além disso, é um especialista nas coisas pampianas e gauchescas, até culturalmente. Na verdade, um amante de sua terra que se entende como brasileiro e, sem nem pensar, acha justa e rica a diversidade do seu País: “as diferenças são riquezas e as experiências são interdependentes, quando olhamos o Brasil como um todo”.


José Fernando Piva Lobato

Biodiversidade do bioma Pampa


Falamos da pecuária, mas precisamos olhar para as raízes. O clima temperado, com temperaturas médias entre 13 °C e 17 °C, garante ao bioma características únicas. Uma delas é a presença de grandes campos de gramíneas (também conhecidas como capins, gramas ou relvas), com 450 espécies dessas plantas espalhadas pela região.


Esse cenário foi encontrado pelos primeiros seres humanos que habitaram a região Sul do Brasil, há cerca de 12 mil anos, e continua sendo a cara do Pampa atual. Mas, por ser tão antigo, o bioma possui grande variedade de espécies e paisagens. Embora seja famoso pelos campos, o Pampa abriga também florestas nas margens dos rios, arbustos, leguminosas (150 espécies), bromélias e até cactos (70 tipos), além de gramíneas (cerca de 450 espécies).


Na vegetação diversificada, vivem, é claro, centenas de espécies animais. Ema, perdiz, joão-de-barro, quero-quero e caturrita são algumas das aves que escolhem o Pampa como lar. O charmoso sapinho-de-barriga-vermelha se destaca entre os anfíbios. Já entre os mamíferos, há tuco-tucos, furões e veados-campeiros, entre outros. O zorrilho – cujo nome vem do espanhol e significa “raposinha” – é um dos mais curiosos: ao sentir uma ameaça, ele produz um cheirinho tão ruim que ninguém aguenta ficar por perto!


A ocupação do Pampa para atividades econômicas começou com a chegada dos espanhóis e dos portugueses à região. Desde o século XVII, há criações de gado por lá – afinal, os campos pareciam, aos olhos dos exploradores, boas pastagens naturais! Por sorte, em vez de prejudicar a vegetação, a presença do gado permitiu a sua conservação: a ação dos animais que pastam é benéfica para a manutenção das principais espécies de gramíneas e leguminosas do bioma. Parece um jeito perfeito de unir atividades humanas e conservação da natureza, certo?


A região das Missões e mais notadamente no Planalto Médio - mais conhecido como campo de barba-de-bode - deram lugar ao que se chama, hoje, de “O Celeiro do RS”. A transformação começou com a “Operação Tatu”, capitaneada pela Faculdade de Agronomia da UFRGS, iniciada em meados dos anos 60. O programa levou ciência para a agricultura local, levantando fantásticas lavouras de trigo e, principalmente, de soja.


A mineração, a ocupação por espécies invasoras e a caça também ameaçam a natureza local. Mesmo com todos esses problemas, o bioma não conta com áreas de preservação suficientes nem está na lista das prioridades em conservação ambiental.


Assim, a história pode não estar caminhando para um final feliz. Embora, no passado, a exploração do Pampa tenha sido marcada pela convivência tranquila entre o homem e o meio ambiente, mais recentemente as novas formas de uso da terra têm contribuído para um rápido desaparecimento da vegetação nativa, que já foi reduzida à aproximadamente um terço da original. Alguns associam primeiro à intensificação do arroz e, atualmente, da soja.


Talvez quem olhe para o Pampa não encontre uma fauna exuberante como a da Amazônia ou uma floresta de tirar o fôlego como as que existem na Mata Atlântica. À primeira vista, o bioma parece bem mais simples do que os outros, mas não se engane, pois isso não quer dizer que ele seja menos importante! Na leitura de mestre Lobato, o que se chama de degradação é uma “ocupação organizada, devido a demandas econômicas e sociais”.


Pelo contrário, os campos do Pampa contribuem – em muito – para a absorção de carbono da atmosfera e o controle da erosão, por exemplo, inclusive por novas tecnologias como Integração Lavoura Pecuária (ILP) e Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF). Nesse bioma, há mais de 3 mil espécies vegetais, muitas delas endêmicas (só ocorrem nessa região), bem como várias espécies da fauna, que dependem dos campos para a sua manutenção. “Assim, fica a certeza de que precisamos, como nossos antepassados, encontrar um jeito de aproveitar os recursos naturais do Pampa, de maneira sustentável”, explica.


Símbolos e representações


Um dos ícones que ilustram a cultura pampiana e o apego à vida dos seus cidadãos brasileiros é a ave “Quero-Quero”. Absolutamente justificável, reconhecida por Lei, porque seus cidadãos “Querem” mais e sempre. Querem entender e progredir, sem pecados. Querem se integrar. Unir um País gigante pode parecer uma missão infrutífera, pelo menos em curto e médio prazos. Mas o gaúcho não nega sua origem indígena, por miscigenação, nem o que a terra lhe deu.


Quero-Quero

Lobato, porém, com toda sua formação reforça que “aqui também é pedaço de Brasil, território continental carente ainda de domínio de técnicas agropecuárias produtivas, em função de sua localização: nos trópicos do hemisfério sul. Então, o que nos resta é conhecer”, diz o professor. Ele ressalta que “pesquisadores, acadêmicos, técnicos e profissionais, devem atuar alinhados em uma mesma direção: a de incrementar a produtividade do País, sempre com sustentabilidade”.


O mundo da bovinocultura


Não há nada mais competitivo do que as produções de carne e leite. Há tecnologias para todos os rincões de Brasil, mas há pouco esforço no sentido de explorar, largando os umbigos do poder público e, estabilizando-se, por conta própria, pela iniciativa privada. E o Pampa fez isso, trabalhou mais e esperou menos, até por seu tipo histórico de ocupação.

Pela Secretaria da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, há pelo menos 270 mil pecuaristas (dados de 2020) – aqueles que declaram a posse de pelo menos 1 único bovino. Mas se falarmos daqueles que possuem um rebanho com mais de 800 cabeças, este número cai para pouco mais de 1 mil deles.


Quando comparada com a do resto do Brasil, a pecuária bovina de Sul do País, em especial do estremo (SC e RS), o modelo das propriedades são bem diferentes. A ocupação é secular, diferente do restante do território nacional. Falamos de propriedades menores que sobrevivem há décadas de sucessões familiares. E, como todos sabem, cada vez mais o agronegócio depende da competência para sobreviver.


Tudo é diferente


O boi, predominantemente, até poucos anos era solto no pasto, desde bezerro, para ser recolhido aos 3 ou 5 anos de idade, neste Brasil que já muda como um todo na atividade, há um bom tempo. São as tecnologias em manejo, nutrição e saúde animal. E nisso, o Bioma Pampa e o Rio Grande do Sul deram grande contribuição ao País, pois foram os primeiros a trazer animais para abate com pouco menos de 2 anos de idade, ainda que não seja em volume representativo para alterar a média do Estado, que busca os 30 meses (4 dentes).



“Pecuária extensiva, aqui, está em alguns poucos hectares; já no restante do País, em milhões. São modelos de colonização, diferentes. Aliás, enquanto no século XVII, o Sul do Brasil estava colonizado, em 2021 ainda estamos tentando saber mais sobre nossas terras do cerrado, Centro-Oeste, o grande celeiro agropecuário do mundo, neste momento”, explica o mestre da UFRGS.


E tudo aconteceu nessa região. Há 30 ou 40 anos, a lã era de suma importância na vestimenta de primeira linha, no planeta. Hoje, a fibra sintética deu o mesmo conforto (ou próximo disso) e a lã ficou obsoleta. Assim, o grande plantel da ovinocultura pampiana caiu de 12 milhões cabeças para pouco menos de 3 milhões. O que sobrevive é a valorização de sua carne, atendendo nichos de mercados específicos e mais abastados.


A ocupação atual do Pampa


É possível que haja um intervalo entre a visão otimista do mestre Lobato e o entendimento de sustentabilidade plena. O bom de saber é que sempre o Pampa Gaúcho esteve na “ponta da lança” da agropecuária. Suas lavouras de grãos podem padecer pelo clima mutante, mas “a carne brasileira tem referências, em termos de qualidade, por genética selecionada e manejo desenvolvido para que os animais sejam terminados com o ciclo mais curto possível”.

“Nosso Brasil é um só. Conheço muita gente que ama o calor intenso e tira dias para brigar por um lugar ao sol, nas praias do Nordeste, com camarões e todos os benefícios das férias. Isso é um sentimento de brasilidade e aceitação de suas diversidades, a exemplo da luta que o resto do País enfrenta”, diz Lobato. O Pampa gaúcho é uma fonte de beleza, como também outra de conhecimento e eficiência de exploração.


Apesar de tudo que a imprensa “menos especializada” diz; o bioma Pampa não está degradado. “É verdade que ele é bem ocupado. Muita verdade! Mas nós não o destruímos, pois ele é nossa casa. Há um bom tempo que entendemos que nossa exploração no campo está servida de informações e tecnologias. Ninguém quer empobrecer e adoecer os filhos de nossos filhos”, conclui Lobato.



Reportagem publicada na edição de dezembro de 2021 da revistanelore. Leia a edição completa AQUI.