Buscar
  • Ivaris Júnior

Patrícia Cáceres Gonçalves, primeira leiloeira rural do Brasil, volta a bater o martelo

A mulher brasileira avança em todas as frentes colocando não só beleza, mas competência e liderança em tudo que faz.


Passados, recentemente, mais um “Outubro Rosa” e o “Dia Internacional da Mulher Rural” (15 de outubro); além da 6ª edição do Congresso Nacional das Mulheres do Agro, mais um CNMA de sucesso, no final do mesmo mês; e de tudo que nossas atletas fizeram nos Jogos de Tóquio 2021 (olímpicas e paraolímpicas), vale brindar o leitor com mais uma grande história de um “vestido” brasileiro. E como diz Manuel Bandeira, é “inútil pensar” que elas são “lindas” apenas por causa dele.


Em pauta, retomada de carreira da primeira brasileira no comando do martelo em leilões rurais. Falamos de Patrícia Cáceres Gonçalves, filha de Pedro Paulo Gonçalves, um dos pioneiros desse modelo de negócio, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, e fundador da Guará Remates. A história desse empresário dos leilões e leiloeiro de muita força e fé se funde com a modernidade conquistada pela comercialização de animais nos Pampas. Na trajetória da filha, as mãos e os pensamentos de um pai intuitivo, atento e presente.


“Há 20 anos me casei e fui residir no Rio de Janeiro, onde fiz minha carreira como fonoaudióloga. Eu já era leiloeira, mas a nova vida abriu outros caminhos. Com o falecimento de meu pai, naturalmente me aproximei mais da família, até no sentido de ajudar a cuidar dos negócios, ao lado de meus irmãos. Foi quando assumi o grande legado que meu pai havia deixado. Entre dezenas de amigos, um grupo – exatamente esse da Feira de Terneiros Bubalinos – trouxeram a demanda por inovação e a minha retomada do martelo”, situa Patrícia.


De pai para a filha


Pedro Paulo está entre os alicerces na comercialização de gado em leilões, ao lado de Trajano Silva, Fausto Crespo, entre outros grandes. Fundou a Guará em 1962 e acabou batendo o martelo por décadas e em importantes praças pecuárias do País. As boas relações no segmento se deve ao fato de pertencer a uma tradicional família de pecuaristas, sobrenome importante das raças Devon e, posteriormente, Charolês e Galloway (trazida da Escócia, por ele mesmo). Tudo isso na Fazenda Guará, e posteriormente na Fazenda Vacaquá de propriedade da família em Rosário do Sul (RS). Então, Patrícia cresceu no ambiente da pecuária e suas demandas de prosperidade.

Ainda muito jovem, leiloando com pai Pedro Paulo, estreava em importantes leilões da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Este pioneirismo na elaboração das famosas feiras de bezerros que se multiplicaram em todo o Sul brasileiro se estende à formação de vários polos criadores e de negócios no Oeste Gaúcho e também no Estado de Santa Catarina, onde realizou os primeiros e vários leilões. Essas vendas com rebanho numeroso de crias são grande incentivo ao mercado e serviram de modelo para todo o País. Aliás, rompeu fronteiras e apregoou no Uruguai. E lá estava a jovem Patrícia com sua bela voz e presença acompanhando o pai em muitas jornadas, sempre aprendendo os bastidores e as nuances do martelo.


Desde criança, era incentivada a falar em público. “Aos meus 3 anos de idade – pela minha timidez – papai já fazia eu declamar Camões para as visitas que chegavam à nossa casa. Fui tomando gosto por falar em público e antes dos leilões fui também apresentadora de bailes de debutante e mestre de cerimônias do Festival de Música Nativista Gauderiada da Canção Gaúcha. Contudo, nem de longe pensava em ser uma leiloeira. Para ter uma ideia, eu cursava Direito na universidade. Mas, aos 18 anos, eu estava em um remate em Rosário do Sul e ele me chamou para assumir o martelo. Quase morri de medo, mas obedeci e deu certo”, relembra.


Verdade é que logo mais Pedro Paulo anunciou a filha como a primeira leiloeira rural do Brasil. Ela também chegou a atuar no Uruguai, no município de Tacuarembó.


Durante oito anos, dividiu o púlpito com o pai, no Sul. Quando se casou, na nova moradia, também chegou a atuar no Rio de Janeiro pela empresa Business. Uma reviravolta, porém, trouxe-lhe o interesse por Comunicação. Foi estudar Fonoaudiologia para embasar melhor seus conhecimentos sobre a Voz Humana e ajudar as pessoas a desenvolver sua expressividade, sua autoconfiança e seu protagonismo pela Comunicação.


“Hoje percebo que, ao preparar meus pacientes e alunos do curso de oratória, também estava incrementando minha preparação para a retomada da profissão de leiloeira rural”, destaca.

Uma retomada em grande estilo


Esse retorno à atividade de leiloeira é consequência do legado de Pedro Paulo e também a fortes vínculos com amigos, colegas de profissão e familiares, entre eles, os irmãos Bibiana e Rafael. Além das atividades ligadas à pecuária, ele também teve suas investidas pela política (como vereador e vice-prefeito), tanto que, quando faleceu, em 2020, a cidade decretou luto oficial por 3 dias.


Entre esses fortes vínculos está o com a Associação Sulina de Criadores de Búfalos (Ascribu). Dela partiu o convite e o incentivo ao retorno. “Quando fiz uma curta participação em um leilão de equinos no Sul de Minas Gerais, em 2019, me acendeu a chama de voltar a leiloar. E quando chegou o convite este ano, senti o forte chamado e a oportunidade de dar continuidade ao legado do meu pai, além da chance de prestar uma justa homenagem a este grande nome da pecuária nacional”, declara Patrícia.


A fronteira oeste gaúcha sempre foi uma região tradicional em bezerros de qualidade, com antigos criatórios de bubalinos, porém nunca realizou uma feira de terneiro búfalo. Agora, da Ascribu – presidida por uma mulher, Desireé Möller – e toda a conjuntura valorizando as mulheres, chegou o convite, inclusive assinado por Fábio Crespo, outro tradicional leiloeiro gaúcho, com renome no Brasil.


Patrícia comprou a briga e, mesmo antes de realizar o evento, chegaram outros convites, até mesmo pelo celular, como para bater o martelo em uma feira de terneiros bovinos, em um remate só de mulheres e outros de gado geral.


Rapidamente, esta feira de terneiros bubalinos bateu em 500 ofertas, melhor ainda, produtos provenientes de criadores de renome, como Vasco Costa Gama, Manoel Osório Luzardo de Almeida, Frederico Pons, entre outros.


Com a mão na massa


Atividade tradicional nessa região do Estado, a criação de búfalos ganhou um evento anual, cuja primeira edição foi realizada em 27 de outubro. Trata-se da 1ª Feira do Terneiro Búfalo da Fronteira Oeste e também do Rio Grande do Sul, com 500 animais inscritos por criadores para serem ofertados por meio de leilão virtual a cargo do Escritório Guará. A transmissão aconteceu pelo Lance Rural (www.lancerural.com.br), com apoio da Parceria Leilões e Fábio Crespo.

Amigos decisivos para o retorno ao púlpito: Fábio Crespo; Raphael Gonçalves, vice-presidente da Ascribu; Desireé Möller, sua presidente; Patrícia Cáceres; Rogério Gonçalves, criador; e Rafael Cáceres Gonçalves.

O plantel de animais foi composto de machos e fêmeas das raças de búfalos presentes no Rio Grande do Sul (Murrah, Mediterrâneo e Jafarabadi). Da safra 2021, nascidos entre janeiro e abril, basicamente, os terneiros apresentaram peso entre 190 e 270kg. A precocidade, a produtividade, a rusticidade e a longevidade são qualidades dos bubalinos que beneficiam os produtores da espécie e a pecuária brasileira, em geral.


O leilão teve chancela da Associação Sulina de Criadores de Búfalos (Ascribu), presidida desde o início de setembro pela primeira mulher eleita para o cargo, a criadora e médica veterinária Desireé Möller. Em seu mandato, a dirigente quer unir e fortalecer os criadores já existentes e atrair novos à atividade. Porém, nada mais natural do que as mulheres ganharem mais espaço.


Patrícia Cáceres, a primeira leiloeira rural do País, retomou sua carreira no comando do martelo. Patrícia pretende conciliar seus papéis de fonoaudióloga, professora de oratória, empresária, leiloeira rural e mãe do Alberto Felipe de 18 anos, em fase de vestibular.


O resultado final aponta que o primeiro leilão virtual de terneiros búfalos do Estado (RS), os preços médios praticados, por quilo, foram: terneiras, R$ 10,16; terneiros R$ 10,39; e novilhas, R$ 10,60. A Ascribu e o Escritório Guará saudaram o resultado, acima da expectativa. Atribuíram a acolhida dos compradores à oferta de animais de qualidade e de padrão racial definido por criadores tradicionais.


Patrícia afirma estar feliz por retomar o martelo neste evento inédito, resgatando uma história construída há mais de 50 anos no Guará Remates. É emocionante ver este destino sendo cumprido, honrando o legado e a memória de meu pai, um homem que sempre teve por tradição o pioneirismo. Mais do que bons negócios, ele dizia que o maior presente concedido pelos leilões onde seu martelo bateu foram os amigos espalhados por todos os cantos.


Búfalos e seu mercado em expansão


A bubalinocultura vive uma nova fase de grande momento de crescimento no Brasil, tanto na produção de carne – com menos colesterol, menos caloria, menos gordura e mais proteínas e nutrientes – como, especialmente, na produção de leite e derivados – naturalmente isento da proteína betacaseína A1, potencial causadora de indigestibilidade e outros problemas gástricos.


Os laticínios que processam leite de búfala em diferentes estados não estão conseguindo “dar conta da demanda”, de acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Búfalo (ABCB), Caio Vinícius Di Helena Rossato, médico veterinário e sócio do laticínio Família Rossato, em Pilar do Sul (SP). Os búfalos são animais domésticos da família dos bovídeos, de origem asiática, utilizados para produzir carne e leite para consumo humano.


Reportagem publicada na edição de novembro de 2021 da revistanelore. Leia a edição completa AQUI.