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  • Por Augusto de Queiroz Pedrazzi

Prejuízo versus lucro: um embate natural

A combinação de uma consciência do presente e uma boa visão de futuro são os requisitos básicos para a prosperidade da agropecuária moderna. Estabilize o sistema e vença.


Já falamos aqui que o gado interage com o solo e que também o microclima, algo que pode ser desenvolvido com bom manejo e cobertura vegetal adequada, é um grande agente nessa interação. Tudo isso tem uma função bastante especial na presença dos verdadeiros trabalhadores pela saúde da terra, que são os vermes macro e microscópios, as formigas e cupins, por exemplo.


Se suas presenças em excesso são indicativos de que algo está errado, sua escassez também. O primeiro a se falar sobre saúde solo é manter as condições básicas já bastante trabalhadas nessa seção. As presenças adequadas dessas formas de vida são dependentes de ações para manutenção de umidade e temperatura na terra.


Sabe-se que o estímulo à existência desses inúmeros seres vivos – alguns não visíveis a olho nu – é benéfico e extremamente necessário. Ocorre que em áreas degradas ou em processo de degradação, essa existência é inviável ou em vias de. Como primeiro fator de baixa presença de nutrientes no solo, qualquer projeto agropecuário está condenado à improdutividade e fracasso.


Por exemplo, um cupinzeiro só consegue se estruturar bem quando existe uma condição de laje que só foi possível porque um volume de argila superficial desceu para camadas mais profundas, levando condições nutricionais mais favoráveis, de modo que os cupins conseguissem se estabelecer. A mesma situação que se dá por intempéries (erosão e etc), o homem pode interferir e proporcionar mais oportunidades de bom ambiente como essa.


Para conferir, o produtor pode observar que onde surge um cupinzeiro, a presença de verde no entorno é maior, tudo é melhor. O solo está mais aerado e, portanto, mais irrigado e úmido. Se o cupim ensina sabe como fazer e aproveitar oportunidades, não precisamos inventar muito. É só repetir.


Também a presença de formigas é um bom sinal, quase um termômetro de saúde. Ela depende de diversidade, ambiente e volume vegetal para sua dieta. O ruim é quando ela não tem o que comer e ataca a cultura e vira praga, exatamente quando há baixa ciclagem e nutrição no solo. Formigas são muito sensíveis a boro e mobilidênio. Mais uma prova de que uma adubação equilibrada é vital.


Outro ponto que confirma essa ótica é que áreas de formigueiro, quando vedadas, a estrutura do solo no entorno se recupera, uma vez que ali existe um trabalho de ciclagem melhor do solo do que em outros. Os insetos estão movimentando partículas orgânicas para fora e para dentro da terra o tempo todo, inclusive trocando a superfície da terra por outras mais profundas. Sem tais condições, a estrutura do formigueiro não se levanta pela incapacidade da cola da saliva ser eficiente.


É obvio que esses animais tem uma função natural que é toda voltada à reciclagem do excesso de folhas, equilíbrio ao estímulo de brotação de vegetais invasores e degradação grosseira da celulose. Enfatizando, esses animais em excesso só não têm condições de êxito sobre uma cultura, até pastagem, se cruzarmos os braços frente aos números do caixa que caem a cada ciclo produtivo.


E é preciso muito cuidado ao controlar a presença em excesso de cupins e formigas. Pesticidas em demasia afetam a existência de outros animais que são muito benéficos à qualidade e saúde do solo. Há muitos agentes vastamente utilizados que vão comprometer sua presença, o que comprometerá a aeração do solo. Um solo aerado permite melhor ciclagem das fezes do gado, permitindo que a decomposição leve mais nutrientes às camadas mais profundas da terra.


Besouros rola-bosta, tatuzinhos de jardim, formigas e uma série deles abrem túneis pelo solo, aumentando a entrada de ar e água (drenagem). Observe que em uma terra mais virgem, a presença desses animais e de vermes é muito mais abundante. Eles constituem um ciclo muito bem arranjado. É quase que uma orquestra sinfônica bem-conduzida por um maestro de primeira linha.


Ocorre que, por nossa falta de entendimento, não conseguimos preservar isso quando entramos com alguma cultura. Nós é que tornamos o ambiente mais inóspito para eles, substituindo-os por pragas mais adaptadas à pobreza e degradação.


Os temidos nematoides, com centenas de espécies, sendo que sete são extremamente nocivos para nós (nossa produção agropecuária), só passam a ser um desastre quando há um desequilíbrio... quando os outros animais benéficos não têm como encontrar êxito na tentativa de sobreviverem, por ação humana (econômica).


Quando proporcionamos baixa reposição orgânica no sistema – lembrando que o solo é absolutamente biológico – a desordem química se instala e o que tínhamos de bom esvai pelos vãos de nossos dedos, assim como nossa sustentabilidade e prosperidade. O que promete alta lucratividade hoje pode ser um passo para colapso produtivo em médio e longo prazos, ainda mais em áreas já comprometidas pela degradação e estresse ambiental.


Tudo isso confirma nossas palavras nesses meses em que estamos aqui. Tudo é interligado formando um sistema inteligente no ambiente. Nós é que geramos desequilíbrios, fora certas condições abruptas de ambiente. O tsunami de Fukoshima (Japão) criou uma série de problemas para a economia pesqueira local. Tudo isso está em aprendizado. Precisamos lembrar que a vida já existia antes do surgimento da pecuária e agricultura que tentamos desenvolver.


Na grande sinfônica, fatores abióticos (não vivos) e bióticos (vivos) interagem. A visão de sistema produtivo ecossistêmico não é apelo “ambientalista”, mas de perspectiva e de estratégia. Ninguém está pedindo para dar as costas ao fluxo financeiro; porém é necessário olhar a sustentabilidade como um investimento necessário e indispensável para a perenidade do negócio agropecuário. Nós nos vamos e a terra continuará aqui para os nossos e seus iguais.


Uma vez enxergando isso tudo há inúmeras estratégias para “caminhar no bom sentido”. Parcerias de diversos formatos é uma delas. Há ainda conhecimento que nos ensinam rotações entre culturas como Integração Lavoura Pecuária (ILP) e Integração Lavoura Pecuária e Floresta (ILPF), ainda que políticas capengas não favoreçam o necessário para suas devidas implantações. Na verdade, existem diversas combinações. Uma boa assessoria dá o melhor caminho.


Mecanização e preparo do solo são dois itens de planejamento muito caros na propriedade. Tudo depende de um bom mapeamento e visualização das ações. Trata-se de um estado de consciência sobre a fazenda que muitas vezes o produtor não gosta ou evita ter, pois é ele que determina o trabalho do dia seguinte, da semana, do ano e da década. Mas hoje não fugiremos mais dele e vamos colocá-lo na nossa rotina diária sem traumatismos. É só entender que tudo faz parte!


Claro que algo como estrutura de cercas para ILP têm de ser devidamente orçadas. Ninguém quer solavancos. Por isso olhar friamente para seu negócio é a melhor atitude. Não vamos ignorar nossas virtudes, muito menos nossas fraquezas. Estruturas de bebedouros e comedouros são ainda mais caras, porém, por nossas crenças até aqui, sabemos que temos de executar. O mesmo vale para a saúde do solo.


Contudo é preciso frisar certas questões decorrentes do nosso assunto. Genética, qualidades de manejo, nutrição, sanidade, agronomia e etc, mudam todas e quaisquer verdades aqui. Porém vale saber que quanto mais eficiência, mais apertado é o funil e mais fácil é identificar a fonte de problemas no sistema. Não se trata de crença, mas de ciência e técnica usual e consagrada.


A agricultura, no Brasil, está muito mais evoluída que a pecuária. Não se trata de que a primeira não sabe ganhar. Nunca, isso! Ela sabe administrar. Conhece o fato de que é preciso repor aquilo que se tirou da natureza. Entre aquilo que chamamos de universo de pecuaristas há os extrativistas. São exatamente aqueles que acreditam que a natureza só dá.


Essa visão de que a nós só cabe tirar é que a ciência já provou há décadas da sua insustentabilidade. Ninguém quer isso, muito menos você! Isso não valoriza, ao longo do tempo, o pedacinho de terra que se tem. Não mais!


*Por Augusto de Queiroz Pedrazzi: Engenheiro agrônomo, administrador rural e especialista em gestão de áreas degradadas, além de produção de bovinos eficientes de corte.

Reportagem publicada na edição de maio de 2022 da revistanelore. Leia a edição completa AQUI.

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