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  • Patrícia Eloísa Tormen

Genética para o melhor desempenho

Melhoramento genético não é um cobertor curto e sim justo. Isso significa que ele pode cobrir muito habilidosamente tudo, mas sem puxar em demasia para lado algum.

D ando sequência aos critérios de seleção, nesta edição trataremos das características relacionadas à produção em bovinos de corte, mais conhecidas como sendo de desempenho. Entre elas, o ganho de peso tem grande importância. Quando ele é intensificado, conseguimos produzir mais arrobas por hectare/ano, aumentamos o peso da carcaça no abate e encurtamos o ciclo produtivo.


O potencial genético é vital para alcançarmos esses objetivos. Por isso é bastante indicado que o pecuarista que faz cria integre-se a um programa de melhoramento genético ou que pelo menos busque informações com técnicos especializados no momento de adquirir sêmen ou reprodutores que tenham a habilidade de transmitir à sua prole potencial de crescimento e carcaça.


Nos sumários de avaliação genética, as principais características relacionadas ao desenvolvimento ponderal são: peso ao nascer (PN), peso aos 120 dias (P120), peso no desmame (PD), ganho pós desmame (GPD) e peso ao sobreano (P450). Então, comecemos pelo PN, mensurado nos primeiros dias do bezerro.


O peso do Peso


Essa medida tem por objetivo reduzir ou eliminar problemas de parto e pode ser aferida com balança suspensa ou fita métrica. A fita métrica dimensiona o perímetro torácico do animal. Cada 1cm corresponde a 2,8kg de peso corporal. Logo, um bezerro medindo 13cm, seu peso correspondente será de 36,4kg.


Como vimos em edição anterior da nossa Revista Nelore, tratando de conceitos no melhoramento genético, as características produtivas têm herdabilidade média e apresentam alta correlação. Isso significa que elas já aparecem e respondem de uma geração para outra. Então se selecionarmos reprodutores apenas para PD ou P450, possivelmente as crias apresentarão PN mais elevado. Aqui, o cobertor justo pode ficar curto.

No entanto, esse não pode ser um propósito nos bovinos de corte, pois temos de ter PN e P450 equilibrados, de modo que as fêmeas apresentem partos de forma natural, sem qualquer auxílio. Paralelamente os bezerros devem apresentar o melhor desenvolvimento ponderal ao longo de sua vida produtiva.


É preciso dar uma atenção especial ao PN porque seu entendimento confunde muito os produtores. Eu sempre recebo muitos questionamentos quando estou na lida de campo. O aconselhável, principalmente para novilhas, é escolher reprodutores para acasalamento que apresentem baixo PN ou até mesmo negativo.


O valor da DEP de PN expressa em kg precisa ser negativo. Se observarmos o valor da DEP e o percentil, perceberemos que os touros mais próximos de negativo também tem um percentil mais próximo de tope 0,1%. Neste item, eles seriam muito bem classificados. Como exemplo, cito dois reprodutores para interpretarmos juntos.


A prática reforça teoria


Um primeiro reprodutor tem DEP de 1,4kg para peso ao nascer (PN), sendo tope 99%. Este valor informa que ao utilizarmos esse touro, suas crias, em média, nascerão com 1,4kg a mais. Nesse caso é preciso muita atenção com qual categoria de matrizes vamos aproveitá-lo para acasalamento. Nesse caso, ele é recomendado para multíparas.


Um segundo reprodutor tem DEP de PN de -600g, sendo tope 0,5% para essa característica. Isso significa que na sua utilização, devemos esperar que seus filhos nasçam com -600g de peso ao nascimento, em relação à média de outros reprodutores do mesmo sumário. Então, ele é excelente para ser utilizados em novilhas.


Mas será que isso quer dizer que suas crias serão também mais leves no peso na desmama e no sobreano?


A resposta é: - Não necessariamente, desde que observemos também as demais DEPs de crescimento e ganho de peso. Este reprodutor chamamos de “outlier”, ou seja, um ponto fora da curva; fora da linha na tradução ao pé da letra. É um indivíduo que tem o PN negativo, contudo, com desenvolvimento excelente pós nascimento, chegando pesado na PD e P450.


Caso queira utilizar um reprodutor jovem em suas novilhas, observe ainda se ele tem avaliação genômica. Ela trará maior confiabilidade nas informações (DEPs). Além disso é bem fácil abrir o sumário e observar a avaliação do pai e do avô materno desse jovem touro. Como PN é de boa herdabilidade, caso o pai e o avô materno tenham números altos para a característica, é esperado que ele também venha a produzir bezerros mais pesados ao nascimento.


Uma boa mãe pesa no peso


Em seguida vamos falar do peso maternal ou peso aos 120 dias. Ele é medido entre os 3 e 5 meses de idade dos bezerros. Essa mensuração é importante para avaliarmos a habilidade maternal das respectivas mães, no que diz respeito à produção de leite e também cuidados com a cria.


Esse manejo de medida pode ser combinado com o de apartação para vacinação de carbúnculo e brucelose. Importante é que, em cada pesagem, lembrar de anotar o número do bezerro e conferir com o da sua mãe, do grupo de manejo e a data de realização dos procedimentos. Nos programas de melhoramento aconselha-se fornecer o creep feeding, após essa pesagem. Isso permitirá avaliar o real desempenho das mães com seus filhotes.


Seguimos agora para o peso na desmama (PD), um dos momentos mais importantes da fazenda. Durante esse manejo podemos observar as informações necessárias para tomada das melhores decisões. A DEP de PD também é expressa em quilogramas; portanto, um touro com DEP de PD de 8kg sinaliza uma expectativa de 8kg a mais de peso em suas crias, em relação a outras de outros touros da mesma base genética, quando acasalados com fêmeas semelhantes.


Cada fazenda tem seu manejo específico para promover a desmama. Exemplificando, há um momento para se fazer a marcação por fogo, identificação por brinco e também um bom manejo sanitário. Nos programas de melhoramento genético, aconselhamos pesar os bezerros por grupos de manejo e, em seguida, apartar machos e fêmeas.


Separando alhos de bugalhos


Também é necessário pesar as matrizes (mães) para traçar a relação desmama, que é o percentual de peso vivo da vaca em relação ao peso vivo do bezerro desmamado. O propósito é obter fêmeas que desmamem suas crias com pelo menos 50% dos seus respectivos pesos vivos. Isso significa que se uma vaca pesa 500kg, seu bezerro deverá pesar no desmame pelos menos 250kg.


Em seguida é necessário fazer uma avaliação visual de machos e fêmeas apartados. Quando os separamos por sexo, grupo de manejo, idade e composição genética, é possível identificar quais bezerros expressaram seu potencial genético e se destacaram no lote, frente aos mais fracos. De forma objetiva, todos tiveram as mesmas condições. E o que levou uns a se destacarem e outros não?


Nesse momento é importante a presença de um técnico especializado em melhoramento genético para esclarecer os fatores que levaram ao resultado exposto. E então é realizada a avaliação visual, identificando o quanto do peso de cada animal analisado corresponde a estrutura, precocidade e musculatura. Ao mesmo tempo, avalia-se ainda caracterização racial e funcionalidade.


Caminhando no sentido correto


O próximo passo é mensurar o ganho de peso pós-desmama. Essa característica avalia a capacidade do próprio indivíduo em ganhar peso. Trata-se de uma medida importante para quem busca animais precoces. Se observarmos as características de peso na desmama e peso no sobreano de um touro, vamos identificar que o ganho pós desmama é a diferença entre essas duas DEPs. No caso, um reprodutor que tenha peso na desmama de 8kg e a DEP de peso ao sobreano de 17kg, seu ganho pós desmama será de 9kg.


Para finalizar, a outra mensuração é o peso ao sobreano (P450). Essa pesagem é realizada entre 13 e 18 meses de idade. A amplitude se refere aos modelos de produção do Brasil, sejam eles mais extensivos ou mais intensivos. Essa característica mostra exatamente a capacidade de ganho de peso pós desmama; logo, vale a pena destacar aqui os pontos importantes dessa DEP.


A busca por animais mais pesados pode levar ao aumento de peso na vida adulta e, consequentemente, ao maior custo de manutenção de matrizes. O que se deve fazer é sempre buscar um equilíbrio entre as características e observar as ações tomadas em relação à seleção do rebanho. A relação de peso na desmama, por exemplo, ajuda-nos a selecionar para um peso adulto mais equilibrado.


É comum em rebanhos que fazem programa de melhoramento genético, observarmos vacas de 450kg que desmama bezerros de peso médio de 225kg. Mas é raro, em regime de campo, matrizes de 600kg que desmamam bezerros de 300kg. Outro ponto é a importância das avaliações visuais. Um cobertor justo é perfeito, um curto pode chatear.


Os animais com estrutura maior, frame alto e ossatura pesada tendem a ser mais tardios, em termos de reprodução e acabamento de gordura. Assim, proponho um desafio. No dia em que for realizar a pesagem de um lote em sua fazenda, observe o peso registrado pela balança e, depois, visualmente, no curral, a composição desse peso observado na carcaça e responda:


– Ele apresenta uma carcaça que você gostaria de ver no frigorífico?


Faça suas observações e depois compartilhe suas conclusões conosco. O melhoramento genético é permanente e duradouro no rebanho. As decisões que tomamos hoje irão refletir nas gerações futuras. O nosso maior ativo são as informações e é, exatamente por meio delas, que tomamos as decisões, reduzimos os custos e alavancamos a produtividade do sistema. O cobertor justo dá o bom sonho realizado.


*Patrícia Eloísa Tormen é zootecnista, melhorista de campo do programa de melhoramento Embrapa Geneplus e sócia-diretora da Grotão Agronegócios.

Reportagem publicada na edição de julho de 2022 da revistanelore. Leia a edição completa AQUI.



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